O dia em que parei de me abandonar.


   O dia em que parei de me abandonar 


Quero prosseguir.

Quero crescer na vida.

Mas algo, invisível, me segura.

Me paralisa.

É como se eu estivesse presa dentro do meu próprio corpo.

À noite, a angústia bate.

Penso no que deixei de fazer.

No que adiei.

No que calei.

Olho ao redor e vejo a vida dos outros passando — como um trem veloz na estação.

E a minha?

Escorreu pelos meus dedos...

como areia fina, impossível de conter.

Carrego sonhos não ditos, vontades engasgadas, gritos silenciados por um medo sem nome.

Mas há uma chama, mesmo que tênue, ainda acesa dentro de mim.

Ela sussurra: “Você ainda está aqui.”

E onde há vida, há caminho.

Mesmo com passos trêmulos,

vou colher coragem no silêncio.

Vou transformar o vazio em espaço fértil.

Porque, mesmo presa, meu espírito ainda sonha com liberdade.

E se hoje a dor me visita, que ela ao menos me ensine onde mora a força que ainda não descobri.

Então, em meio ao cansaço e à dúvida, um sussurro nasce no fundo da alma:

“Acorda, mulher. Você não é essa prisão.”

Algo desperta.

Não com estrondo, mas como a luz suave da aurora que, aos poucos, vence a escuridão.

É um chamado...

não vindo de fora, mas do centro do peito.

Um sopro de vida que insiste:

“Você foi feita para florescer.”

Nesse despertar, começo a lembrar: de quem fui, de quem sonhei ser, de quem ainda posso me tornar.

Percebo que a dor não veio para me destruir, mas para me acordar.

Ela escavou espaços dentro de mim, onde agora posso plantar algo novo.

Me reconecto com o sagrado que habita em mim.

Com aquela força silenciosa que não grita, mas sustenta.

E vejo que não estou sozinha.

O céu nunca me abandonou.

Deus sempre soube o meu nome, mesmo quando eu o esqueci.

Agora, cada lágrima se torna oração.

Cada silêncio, um berço para minha cura.

Cada passo, um retorno a mim mesma.

Estou despertando.

Não para ser o que o mundo espera,

mas para ser inteira.

Para viver, enfim, como quem sabe:

sou casa, sou caminho, sou chama viva.


Escrevo com o coração que já sangrou, mas nunca deixou de crer. 

Por Lay Nunes.




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