Sou um muro

           

 
 

     Forte, rígido, disponível.

Sustento dores.
Quero ser útil.
Mas às vezes, no fundo, não sei ao certo o que quero provar.
Talvez que eu mereço amor…
Talvez que, sendo necessária, eu me torne valiosa.
Exijo do outro o que imponho a mim:
excelência, entrega, esforço constante.
Mas vejo — com olhos que aprendem a se abrir —
que esse peso pesa.
Que nem todo mundo foi feito pra suportar como eu finjo suportar.
Há um cansaço escondido no meu peito.
Há algo que acelera meus passos sem direção.
A balança do tempo e do dinheiro expõe meu desequilíbrio,
como se o caos fora gritasse o vazio de dentro.
Por que sou assim?
Talvez porque, um dia, amando demais e sendo pouco vista,
aprendi que servir era o caminho mais curto pra ser notada.
Talvez porque perfeição virou a máscara mais segura
pra esconder minha falta.
Mas hoje...
hoje eu só quero aprender a existir sem carregar o mundo.
Quero ser útil, sim.
Mas, primeiro...
quero ser inteira.
Sou estrutura.
Me faço parede pra que o outro não desabe.
Me moldo em forma de apoio — mesmo quando estou prestes a ruir por dentro.
Tenho sede de ser útil.
Não por vaidade…
mas porque, talvez, a minha presença só se justifique quando serve.
É como se minha existência só valesse algo
se vier com um propósito para alguém.
Há em mim traços de uma alma que aprendeu cedo a se anular.
Codependência disfarçada de compaixão.
Coloco o outro no centro,
espero reconhecimento que nunca vem,
e me frustro em silêncio.
Me vejo cobrando o impossível,
não por maldade — mas por carência...
Bom, é o fruto do inconsciente, diz.
O perfeccionismo mora onde a dor não foi acolhida.
Busco controle onde faltou segurança.
Faço mil planos para esconder a falta de chão.
Mas minha desorganização financeira grita
o que o coração tenta calar:
o desequilíbrio mora aqui.
Corro, fujo, faço mil coisas ao mesmo tempo.
Desregulação emocional com aparência de produtividade.
Mas, no fundo,
é só uma criança ferida tentando não ser abandonada de novo.
Não lembro em qual momento gerou essa crença...
mas os frutos do comportamento denunciam.
Não sei bem o que tento esconder…
Talvez um sentimento de não ser suficiente.
Talvez o medo de não ser amada apenas por existir.
Hoje eu reconheço:
não é fraqueza admitir que não dou conta.
É coragem.
E talvez o começo da cura seja esse:
parar de ser muro,
e começar a ser morada.



Por Lay Nunes




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